Análise da derrota do Partido dos Trabalhadores em Porto Alegre, antiga capital do FSM, escrita já há dois anos, ainda atual, creio, pelo menos para comprender o que temos que recuperar... Foi publicada pelo nosso amigo Renato Rovai na Revista Fórum, e em algumas outras....
"A possibilidade de o Fórum Social Mundial não ter mais sua sede permanente em Porto Alegre só surpreende aqueles que não entenderam o que estava por trás das eleições municipais dessa emblemática cidade, em que uma coalização de partidos de direita (de conservadores a neoliberais) derrotou a Frente Popular (PT, PC do B, PSB). Não se tratava de mudar ou não um governo exitoso de 16 anos. Não se tratava de fazer um experimento, para ver se a saúde e a segurança melhoravam.
Alguns elementos permaneceram ocultos nas eleições nessa capital de mais de um milhão de habitantes e em que essas áreas são reconhecidamente muito melhor conduzidas que em qualquer outro lugar do Brasil (um país pobre com uma cidade sui-generis, cujos Índices de Desenvolvimento Humano são
comparáveis até mesmo aos de muitos municípios europeus, graças a políticas arrojadas e instrumentos inovadores). Ocultos não apenas dos restantes dos habitantes do planeta, mas dos próprios porto-alegrenses.
Foi um embate entre dois mundos. De um lado o liberalismo econômico, a conservação da exploração do homem pelo homem para acumular lucro. De outro a tentativa de construir um mundo melhor, países afora, inspirada em grande parte na experiência de Porto Alegre, riqueza que muitos porto-alegrenses sequer chegaram a compreender. É isso o que deveríamos ter condições de enxergar neste momento: não o conheceram porque vivem presas de uma fantasia, uma realidade fabricada pelo poderoso grupo de comunicação local e seus grupos econômicos aliados.
Não é de hoje que se sabe que o que aconteceu em Porto Alegre nesses 16 anos, e que motivou a vinda do Fórum para cá, é mais conhecido por uma infinidade de pessoas, movimentos sociais, partidos, sindicatos, associações e governos no mundo todo do que pela própria cidade em que
tudo isso começou. Basta recuperar o que o maior jornal da cidade dizia do Fórum em seu primeiro ano, posição que gradualmente foi se modificando por força de uma contradição que se apresentava óbvia e ululante à frente dos moradores da cidade. Sempre diminuiu a importância do FSM, reduzindo-o a uma feira, importante para movimentar o comércio e os
serviços locais em uma época em que a cidade estava vazia (as férias de verão). Pois bem, essa pouca importância contrasta frontalmente com o que ele verdadeiramente significa, para gente de diversos países do mundo, onde as cidades brasileiras mais conhecidas são Rio de Janeiro, São Paulo e, desde 2001, Porto Alegre. E apenas essa última é lembrada só por seus aspectos positivos.
Passamos os primeiros seis meses de 2004 na Espanha. Mais de uma vez apresentados, eu e a fotógrafa Ana Paula Stock, não apenas como brasileiros, mas como pessoas que viviam em um lugar especial. Foram muitas as vezes que isso aconteceu. E uma dessas manifestações nos marcou
profundamente. Uma amiga disse, emocionada, a um grupo, em León, cidade no norte espanhol: “Esses são Jéferson e Ana Paula. Eles são brasileiros, mas, melhor ainda, eles são de Porto Alegre”. León é uma cidade de 170 mil habitantes, em Castilla y León, a quase cem quilômetros de Portugal. Uma cidade pequena, mas lá, assim, como em diversos municípios europeus, muitas pessoas não só conhecem Porto Alegre
como entendem o que aconteceu por aqui, talvez muito mais do que os próprios porto-alegrenses, conforme o que ficou expresso nas urnas deste domingo. Para os leoneses, assim como muitas outras pessoas no mundo todo (em Mumbai, na Índia, por exemplo, onde também estivemos por ocasião do 4º
Fórum Social Mundial) Porto Alegre representava a esperança de um mundo melhor, a construção de um planeta com menos exploração, pacifista, respeitador das diferenças étnicas, sexuais e culturais, um mundo mais justo e igualitário, ponto de resistência, no sofrido sul do planeta, à barbárie capitalista que devasta o mundo (basta conhecer a América Latina e a Índia para saber do que estamos falando, sem precisar ir à África, onde deve ocorrer o Fórum de 2007). Porto Alegre tinha um diferencial. E estava no mapa do mundo por ser diferente de todas as experiências colocadas em prática até então. Agora, é igual a qualquer outra.
A Davos quente esfriou
A partir de 1999, com as manifestações contra a OMC, em Seatle, nos Estados Unidos, o mundo passou a viver um clima de muito mais esperança.
Em 2001, Porto Alegre, uma pequena capital de um estado brasileiro, começou a ser vista como a grande possibilidade de transformação do planeta, em algo melhor. Aqui, a Frente Popular chegou ao poder e inventou uma maneira revolucionária de dar poder aos habitantes da cidade.
Com o Orçamento Participativo, subverteu regras que não mudavam em termosde democracia desde, provavelmente, a Grécia Antiga. A democracia participativa e diversos outros mecanismos que possibilitaram uma verdadeira apropriação pública do Estado, com arrojadas políticas de inversão dos investimentos, fizeram de Porto Alegre um lugar, realmente, especial. A ponto de, em plena ressaca neoliberal, dos anos que se sucederam à queda do muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, Porto Alegre despontar no cenário mundial como a inventora da democracia que a esquerda ainda não tinha, uma democracia de qualidade, com substância, de alto impacto. O mundo ainda marcava passo no neoliberalismo.
Porto Alegre andava no futuro, e inclusive com uma democracia própria, em nada lembrando o chamado socialismo real de qualquer outro lugar.
Mas o que isso significa? Em todo o mundo, a democracia parecia ser uma coisa do capitalismo e o socialismo era chamado de totalitário. De repente, o mundo descobre que se inventou nos Pampas um tipo de democracia que dava novos ares àqueles que desde que o mundo é mundo lutaram contra a exploração econômica, ambiental, cultural, sexual etc.
Descobriu-se no final do século XX que a democracia participativa vinha dando certo numa cidade grande e transformando a realidade de milhares de pessoas, principalmente as mais pobres, nas vilas, mas também chegando às áreas centrais da cidade. Passaram a vir estudiosos do mundo todo não só para saber do OP, mas das políticas ambientais, educacionais (que geraram um outro Fórum que também deve ir embora em breve, o Fórum Mundial de Educação), gerenciais (um tipo de administração transparente e com diversos mecanismos de apropriação pública do Estado nunca experimentados nesta radicalidade, na raiz, mesmo) e outras.
O Planeta se admirou (até a ONU reconheceu) e escolheu Porto Alegre como o símbolo da luta por um mundo melhor, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial, de Davos, o encontro anual que há mais de 30 anos reúne os donos do poder econômico numa estação de esqui na Suíça e que agora
comemoram o esfriamento de seu espelho ao contrário, Porto Alegre, numa vitória da elite mundial em que boa parte do povo votou, sem saber, contra si próprio, enganado por uma promessa vazia amplificada e repetida ad nauseum através de um slogan e uma música.
Em janeiro de 2001, Porto Alegre passava a ser conhecida como a “Davos quente”, a atrair a atenção mundial para nossos símbolos, entre eles a Usina do Gasômetro e o Guaíba, conhecidos hoje mundialmente pelo êxito da administração e seus mecanismos que possibilitaram ouvir a comunidade e a
horizontalizar a governança local. Essa experiência tão rica gerou ainda mais dois fóruns, realizados há aqui fazem cinco anos e que também devem ir embora: o Fórum Internacional de Software Livre - que trouxe diversas vezes para a cidade a ponta da tecnologia livre do mundo inteiro - e o Fórum das Autoridades Locais - que se realizou, por último, em Barcelona e que se realizaria mais uma vez em janeiro em Porto Alegre, reunindo prefeitos, vereadores, deputados das mais progressistas cidades do planeta. É tudo isso o que o porto-alegrense perde, sem saber, porque uma boa parte não consegue sequer viver a própria realidade, mistificada pelas
elites através de seu poderoso meio de reprodução e amplificação de preconceitos e frases feitas que inundaram a nossa bela cidade nos últimos tempos, no irracional e infundado “antipetismo”.
Esse comportamento é demais contraditório, absurdo até. Mas se explica um pouco se compararmos o que foi dito pelos jornais daqui com o que outros periódicos do mundo todo falaram de Porto Alegre sobre o que acontecia no mesmo período de 16 anos. O próprio conservador Le Monde assinalou no final do século passado que “a globalização parou em Porto Alegre”. A cidade foi notícia no The New York Times e tantos outros grandes jornais.
Foram políticas e programas tão importantes que chegaram a motivar uma frase emblemática no jornal francês Le Monde Diplomatique, pouco ecoada por aqui: “o século XX começou em Porto Alegre”. Só o porto-alegrense não ficou sabendo, por obra e graça de uma imprensa que durante este tempo todo ocupou-se em fazer com que boa parte dos porto-alegrenses não se desse conta do que acontecia a dois palmos de seu nariz.
As reiteradas desconexões de causas e efeitos, na tevê, rádios e grandes jornais, e a criação de um jornal sensacionalista fracionaram - estilhaçaram, melhor dizendo - a racionalidade que as transformações colocavam no dia-a-dia dos porto-alegrenses. O resultado foi que todos lá fora sabiam o que se passava aqui, menos uma grande parte do povo pobre e classe média da cidade, facilmente manipulada este ano para votar contra si mesma.
Desta vez, o domínio do grupo de comunicação chegou ao absurdo de publicar uma previsão do tempo completamente equivocada, com chuvas e trovoadas no lugar do céu limpo do dia da eleição, com medo de que parte da classe média alienada não ficasse na cidade para votar em favor do seu
projeto. Sem falar nas estapafúrdias pesquisas e notícias divulgadas insistentemente para levar o eleitor a respirar “um clima de mundaça” e de terror. Um jogo armado por todos os lados.
Pouco mais da metade dos porto-alegrenses (53%) saiu nas ruas na noite de domingo, 31 de outubro, para comemorar a mudança. A outra (47%) chorou, impossibilitada sequer de falar com seus próprios vizinhos e parentes sobre o que realmente aconteceu, não só estes dias, mas tudo o que se
passou em nossa cidade nesses últimos anos. Eles não sabem o que perderam, principalmente por viverem não nessa Porto Alegre que o mundo todo conhece, mas numa realidade estranha, fabricada, irreal.
De um lado a classe média e sua estética e ética ególatra, auto-referente e alienada por uma programação e vida social mastigada, enlatada para o consumo rápido, fácil e limpo. De outro, as camadas mais pobres e seu cardápio de sangue, futebol e mulheres nuas equilibradas diariamente numa
capa do jornal sensacionalista, criado pelo mesmo grupo para circular entre esses leitores. Nos dois lados, informação de baixa qualidade acessível para ambos. No entanto, o preço que esses leitores pagam é duplo e não está estampado na capa desses jornais: é o esmirilhamento da racionalidade, o preconceito e a incapadidade de ligar causas e efeitos, de um lado. De outro, a diminuição do seu próprio poder (em se tratando do povo), entregue, agora, de mão beijada, à velha política paternalista, vertical e arbitrária (mesmo que o falso discurso da emoção tente demonstrar sempre o contrário). O certo é que esses meios de comunicação (inclusive com políticos-comunicadores criados dentro de suas próprias
emissoras) se mostraram a principal ferramenta da elite porto-alegrense para convencer a maioria dos pobres e da classe média a votar contra seus próprios interesses. Sai a Frente Popular, sai o povo do poder, saem o Fórum Social Mundial, o Fórum Mundial de Educação, o Fórum das Autoridades Locais, o Fórum de Software Livre, perde a democracia participativa, de alta intensidade. Quem saiu ganhando foram esses grupos
empresariais, numa eleição em que vencer todos e quaisquer debates não foi suficiente para que a razão não fosse derrotada nas urnas.