Escafandro

Filosofia, literatura e periodismo. Também política e outras estripulias.

Quinta-feira, Outubro 06, 2005

A estetização do político (ou o dandismo de esquerda)

Uma antiga discussão, sobre um encontro que (ainda) nunca aconteceu... A proposta era essa, corrida na lista da Rede de Resistência Global (RRG). Tratava da necessidade de realizar, dentro do 5º Acampamento Intercontinental da Juventude, de um grande seminário sobre a chamada “nova cultura política”. Um encontro que colocasse frente a frente os diversos atores políticos de juventude (e com a juventude) que fazem parte do Fórum Social Mundial. Um encontro de debate, de confronto de idéias para analisar o que chamamos de "nova cultura política", suas práticas e teorias. O artigo, reproduzido abaixo, tinha (e tem) a intenção de dar um pontapé inicial para começarmos esse debate.

"De cara, acho que precisamos tocar pelo menos num fato que não
podemos ignorar, vivenciado especialmente pelos jovens: existe uma
assimilação excessivamente rápida e, muitas vezes, sem mediação,
de idéias da moda política européia, prejudiciais ao enfrentamento
das nossas realidades políticas locais (no Brasil). Bastaria, para isso,
prestar atenção ao fato de que, enquanto coletivos europeus
desfraldam suas bandeiras de oposição franca ao Estado e aos
partidos políticos em geral, aqui (em Porto Alegre, São Paulo e
outras cidades), nos defrontamos neste 2004 com a brutal realidade
das mais difíceis eleições da última década, eleições que guiam os
rumos das políticas sociais pelos próximos quatro anos, quem sabe
até muito mais. Essa eleição só nos mostra, na prática, a
evidência de que, do lado de baixo do Equador, o abandono da
disputa pelo poder significa suicídio.
Do outro lado dessa rápida assimilação das idéias de fora, há um poder de
produção e reprodução muito grande dos europeus que distorce os
diagnósticos e impossibilita que se coloque em prática, nos locais em que
mais se necessitam (América Latina, Ásia e África), ações realmente
efetivas para a construção de um mundo melhor. Penso que esse problema
decorra de dois fatores.
1. Nossos amigos, os jovens ativistas europeus, em geral, têm tempo, educação,
prestígio (por viverem em países como França, Inglaterra e Alemanha) e dinheiro
suficientes para produzir e reproduzir suas idéias com uma força
avassaladora, e que chega muito rapidamente a nossos jovens de classe
média, principalmente via Internet. Daí que a experiência política local
dos europeus acaba facilmente valendo para o mundo como se reproduzisse a
realidade mundial.
2. Os jovens da classe média (brasileira, por exemplo, mas argentina e
outras também) em geral concordam com a visão distorcida espalhada pelos
europeus, pelo fato de que seus padrões de vida não são assim tão
diferentes dos da maioria desses europeus. Isso parece acontecer tanto no
Rio de Janeiro quanto em São Paulo e mesmo em Porto Alegre, mas
possivelmente seja comum em outras cidades da América Latina. Com tempo,
educação e dinheiro suficientes, reproduzem essas idéias entre os jovens
brasileiros mais pobres.
Nossa crítica direciona-se especificamente a coletivos, redes e
indivíduos europeus que, descontentes (e com razão) com sua
história política, fazem uma desconstrução dos partidos políticos e
outras formas de organização, tais como sindicatos, baseada tão-somente
na experiência que possuem na Europa. De fato, na Europa, partidos
políticos e sindicatos não significam o mesmo que no Brasil. Bom, mas
aquela se trata de uma sociedade com uma imensa classe média e duas
pequenas franjas, uma de ricos e outra de pobres. Não é essa a realidade
brasileira, por exemplo, em que a concentração de renda faz com que
exista um imenso número de pobres e de outros tantos abaixo da linha da
pobreza.
É natural que, na Europa, a diferença entre as organizações partidárias
reflita a pouca diferença de uma sociedade com uma distribuição de renda
bem melhor que a nossa, com muito mais educação, saúde e acesso a bens
culturais. Dessa maneira, essas organizações de ricos e pobres não se
diferenciam tanto, causando as confusões que conhecemos da realidade
política européia em que esquerda e direita pouco se diferenciam.
O mesmo acontece com os sindicatos em um lugar em que os trabalhadores,
com uma história de conquistas muito distinta da nossa, têm um padrão de
vida bem superior ao dos brasileiros, garantia de direitos sociais e
qualidade de vida. Um pedreiro espanhol pode passar as férias em
praticamente qualquer país do mundo, ter acesso a leitura de qualidade e
dar uma boa educação (gratuita) a seus filhos. Essa boa vida se reflete
no (baixo) grau de engajamento no sindicato e até mesmo no papel que os
sindicatos têm num país como esse. Claro que as ameaças a esses mesmos
direitos existem, mas a freqüentemente boa educação européia garante que
o sistema continue como está.
Os jovens de lá parecem ter razão em achar que esses sindicatos são
estruturas burocráticas, hierarquizadas e tomadas por burgueses. O
problema é a universalização, que mais uma vez a Europa faz, agora, por
alguns novos intelectuais, da sua realidade política local. Nas outras
aldeias do mundo, as coisas são bem diferentes. As realidades políticas
latino-americana, africana ou asiática têm pontos bem distintos da
européia. Em nossas aldeias, temos especificidades políticas que nossos
ativistas precisam primeiro conhecer, antes de reproduzir o pensamento de
ingleses, italianos, franceses e canadenses. Precisam olhar para trás
para saber como andar para a frente, deglutir o passado e,
principalmente, o presente a sua volta, e a partir dele fazer coisas
novas. O atalho propiciado por artigos de ativistas da moda não resolve a
dureza do problema ao lado. No máximo é de auto-ajuda para um problema
pessoal, estético, de um dândi de esquerda.
Agora, pensemos o seguinte. Para pegar outros dados não muito
divulgados: o Brasil inteiro, por exemplo, tem duas mil
livrarias. Só Paris, uma única cidade européia, possui duas mil.
A história do livro e da educação aqui mostra que nosso poder de
decisão e de auto-organização, a que os jovens europeus e os
nossos ativistas da classe média se referem como a maneira de
fazer política por excelência da nova geração política, não é uma
realidade visível, sequer presumível, nos próximos 40 anos, se a
coisa seguir como está.
Frente a uma realidade dessas, precisamos perguntar qual o real papel dos
sindicatos, organizações e partidos de esquerda no Brasil. Não sou
filiado a nenhuma dessas organizações, mas penso que nossa realidade
seria ainda muito pior se não existissem três grandes organizações no
Brasil, entre as maiores do mundo em suas áreas: Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Central Única dos Trabalhadores
(CUT) e Partido dos Trabalhadores (PT), com todas as críticas que se
façam e que eu também faço a elas. Mas não consigo ver um Brasil melhor
sem essas estruturas “verticais”, “hierarquizadas” e “tomadas pela
burguesia” (em geral o MST é colocado de fora dessa terceira
classificação).
As reformas neoliberais estariam muito mais avançadas no Brasil
caso elas não existissem, o que podemos ver na comparação com
países em que não há um grande partido de esquerda e organizações
similares, como é o caso do México (apesar dos zapatistas) e a
Argentina (apesar dos piqueteiros). Veja-se de tantos outros
países na América Latina em que os ativistas louvam a existência
dessas organizações brasileiras em todos os eventos que envolvem a
esquerda latino-americana. Não podemos, com isso, dizer que
estruturas como essas são o melhor que há, mas em se tratando da
realidade política e social brasileira não há como negar que elas
são, até hoje, o grande trunfo da defesa da parte pobre da
sociedade brasileira, embora, muitas vezes, não faça exatamente
tudo o que poderia ser feito. Porto Alegre chamou a atenção
mundialmente por causa do governo de um partido e de um "estado"
participativo.

A lição indiana

Em janeiro de 2004 estivemos no Fórum da Índia, evento cuja grande
marca foi deixar os ativistas europeus e a classe média
latino-americana com a cara no chão. Um bilhão de pessoas vivendo
uma realidade política que absolutamente não corresponde em nenhum
ponto à idéia que esses ativistas têm do mundo. A Índia tem 42% de
sua população analfabeta, 170 milhões de intocáveis e uma religião
que estrutura uma sociedade de maneira tão rígida que dificulta os
ideais do autonomismo e da auto-organização.
Lá o Estado é uma bomba atômica e canhões apontados para o Paquistão e
uma imensa empresa que faz as vezes de cuidar dos interesses dos mais
ricos. E o que será que restou do estado no Brasil e restante da América
Latina, depois de mais de uma década de onda neoliberal? Será que as
teses autonomistas, anarquistas e românticas da nova geração política têm
condições de levar mais saúde e educação à população de pobres que,
segundo os jornais, vem crescendo ainda mais na última década?
E tem o seguinte. Um finlandês quando chega aos 35 anos ainda é um jovem
que, se quiser, vai, a partir de então, constituir uma família e,
finalmente, trabalhar. Desde as séries iniciais até praticamente o
doutorado ele tem seus estudos garantidos. Fala de três a quatro línguas,
todas aprendidas na escola pública. Não precisa trabalhar porque o estado
o considera um trabalhador se estuda e inclusive ganhará dinheiro para
estudar fora de seu país. Ele, sinceramente, tem todo o direito de se
revoltar contra o Estado, como uma instância, um conjunto de leis, acima
dele, que o oprime como o indivíduo autônomo que é.

Vila Sapo é que vive o mundo sem estado

Só que na pequena Vila Sapo, fundos do bairro Mathias Velho, em
Canoas, região metropolitana de Porto Alegre, uma população,
possivelmente muito maior que todos os pobres finlandeses juntos,
daria graças a Deus por um estado que possibilitasse uma escola
perto de casa (com pelo menos o secundário público e gratuito),
luz acesa nas ruas e segurança que protegesse os que conseguem um
emprego de baixíssima qualidade longe de casa. Esses brasileiros
vivem na pele a realidade de uma vida sem a “opressão” do Estado,
a ausência de leis, a barbárie e o deus-dará a que são jogados e
sem nenhuma possibilidade de fugir. O que quero dizer é que parece
existir uma juventude de classe média brasileira que não tem a
menor idéia do que é viver sem estado, que tem uma educação tão
boa quanto a dos eurolpeus (garantida em escolas privadas e
caras), que falam inglês e francês e que gostariam de viver em um
lugar livre de leis, autônomo, e sem a opressão do Estado. Pois
bem, esse lugar já existe. É a realidade de todas as favelas,
vilas e bairros periféricos brasileiros.
Em Barcelona tivemos a oportunidade de assistir Antonio Negri
falar sobre o novo ativista, um romântico, um indivíduo, que faz
uma nova política, baseada em uma entrega pessoal. Segundo Negri,
o trabalho é algo imaterial, hoje, e o trabalhador do século XXI é
um fornecedor de serviços mais que um trabalhador braçal. Com meio
centímetro de testa, se poderia entender que esse ativista não tem
absolutamente nada a ver com o mundo, que reflete uma aldeiazinha
muito pequena da comunidade mundial, a Europa. No que Negri fala
está uma questão absolutamente importante de se pensar: o ativista
europeu (e o classe média brasileiro) é um romântico, um dândi, um
indivíduo em que prevalece a dimensão estética à ética ou política
(o homem é um animal ético-estético). Sem mediação, sem conceitos,
a chamada “nova cultura política” corre o risco de não passar de
um fútil exercício estético, cuja ética vem a reboque e faz parte
da própria estética, uma ética individualista e romântica, bonita,
talvez irresponsável."

1 Comments:

At 8:56 AM, Blogger Alejandro Maciel said...

Jeferson: no sabía que habías escrito 15 libros, pensé que eras periodista, perdón colega.
Hay un libro tuyo sobre la lectura que me gustaría leer, es la misma preocupación y además esa idea de hacer Mosaico de Libros en Porto está genial, justamente, estamos armando una mesa en la Feria del Libro de Porto Alegre el 5 de noviembre a as 17 horas sería GENIAL que estuvieras, el tema es proponer acciones prácticas para la integración en literatura entre Brasil e Hispanoamérica. Trataré de llevarme a alguien de Cultura de la Nación de Argentina.
Un abrazo, respondeme por favor.
Alejandro Maciel
talomac@gmail.com

 

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