Escafandro

Filosofia, literatura e periodismo. Também política e outras estripulias.

Quinta-feira, Janeiro 05, 2006

Jaipur, Índia, 2004


A foto aí, da Ana Paula Stock, feita em janeiro de 2004, dá uma palhinha do que a gente encontrou na Índia, imenso, multicolorido e superfacetado país do Oriente. Esta foi feita em Jaipur, no norte da Índia, tipo quase no deserto do Rajastan. Caos! E a beleza esfuziante de um país inacreditavelmente vivo, no sentido mais profundo do que esta palavra pode nos trazer. Para chegar até ali, enfrentamos 27 horas de busão superlotado e sem amortecedor desde Mumbai. Esta e dezenas de outras imagens integram uma exposição da Ana Paula que o nosso coletivo, o Mosaico de Livros, está realizando, neste momento em Porto Alegre - na Pinacoteca, República, Cidade Baixa. De lá, vai para a divisa do Brasil com o Uruguai, ao mesmo tempo que outra parte da exposição começa em Brasília, no glorioso Café da Rua 8. Dia 24, durante o VI FSM, as fotos estarão em Caracas, Venezuela, marcando uma maluca exposião simultânea em três países.

Sábado, Outubro 15, 2005

Entrevista com Mattelart

“Os que desafiam a ordem estão sendo observados”

Em 2002, entrevistei o Armand Mattelart, em Porto Alegre, durante o segundo FSM. Das coisas mais agradáveis, profissionalmente falando, que já fiz em minha vida. A cara do Mattelart nesta foto, feita pelo grande amigo Gil Cafrune Gosh, diz um pouco de uma tarde das mais dez. Publicamos na Vox 21, onde colaborei por dois profícuos anos. Pra conferir, site da Corag... "O comunicólogo belga Armand Mattelart sente-se muito à vontade dentro da tradição européia dos intelectuais que não abandonam o campo de batalha das lutas sociais. Estudioso da comunicação, professor da universidade Paris VIII, Mattelart participou do Fórum Social Mundial 2001 e do 2002. Nestes dois eventos, ele veio fazer o que sabe: sublinhar os novos símbolos que aparecem neste tempo de transformações pelo qual passamos. Assim, ele analisa a necessidade de democratização da imprensa e o papel que Porto Alegre desempenha nesta etapa nova das lutas sociais. Nesta entrevista dada a Jéferson Assumção, Mattelart trata desses e muitos outros assuntos que o mostram como um intelectual que vive a transformação do mundo, e não apenas teoricamente."

Mumbai, Índia


Em janeiro de 2004,o site da Carta Maior publicou uma série de matérias minhas feitas na Índia, em Mumbai, onde ocorreria o IV Fórum Social Mundial. Ao todo, umas nove matérias, que podem ser encontradas na carpeta feita pela agência, como cobertura especial do FSM. Uma das matérias é esta: Mustafa Barghouti fala de paz em Mumbai, com foto de Ana Paula Stock.


Un puerto a la espera de libros

"Construyendo la Biblioteca del Foro Social Mundial

Los navíos que pasaban por el puerto de Alejandría, en el Egipto, por los siglos II o I a.C, se quedaban más tiempo anclados en el muelle do que cuando andaban por otras ciudades del Mediterráneo. Era el tiempo necesario para que un ejército de copistas de la Biblioteca de Alejandría reproducieran línea por línea los libros que la tripulación traía. Fue con la ayuda de esta especie de impuesto literario que la Biblioteca se constituyó en lo mayor acervo del espíritu humano de la antigüedad. Los administradores se quedaban orgullosos de pasear entre las estantes que contenían "todos los libros del mundo". Infelizmente aquel inmenso tesoro se perdió, en tres incendios, el último en 640." O texto acima pode ser encontrado completo na Librinsula, revista de amigos de La Habana, Cuba.

Sexta-feira, Outubro 14, 2005

"Mosaic of books", notícia na Red Pepper


Faz tempo... Um artigo na Red Pepper sobre o Mosaico de Livros... Bacana! Nossa ida a Londres no primeiro semestre de 2004 rendeu frutos de trabalho ativista e amizades ninjas. Warwick, Birminghan, London... Um choque de como o mundo funciona, depois de quase um mês do outro lado da moeda, num dos fundos do poço do capitalismo, em Mumbai (Índia), durante o FSM 2004...

Mosaico de Livros - Biblioteca Social Mundial

Desde 2001, que estamos construindo o Mosaico de Livros - Biblioteca Social Mundial. A campanha visa à formação de uma biblioteca de alternativas em Porto Alegre, em diversas línguas, com temas que respeitem a Carta de Princípios do Fórum Social Mundial. Pretende ser uma biblioteca ativa, local e mundialmente, com base no copyleft, trabalhando em favor do livro e da leitura, promovendo a diversidade cultural, o conhecimento compartilhado e a consciência crítica.

O objetivo é constituir, a partir das edições do Fórum Social Mundial, um grande acervo de obras importantes para a construção de um mundo melhor, que fixe as idéias que circulam no processo Fórum Social Mundial e que estejam à disposição da população mundial,através de uma biblioteca física e de uma biblioteca virtual na internet(www.mosaicodelivrosfsm.org). O projeto é dividido em duas partes que se complementam: Mosaico Real e Mosaico Virtual.

Mosaico Real - Já possui mais de quatro mil livros, que chegaram nas edições anteriores do Fórum Social Mundial e Fórum Mundial de Educaçâo. Pretende-se chegar a um número em torno de 20 mil livros, disponíveis para empréstimo e pesquisa. Por isso é importante que cada participante do Fórum traga pelo menos um livro para a biblioteca, assim como os
palestrantes das diversas atividades.

Mosaico virtual – O site www.mosaicodelivrosfsm.org pretende disponibilizar on-line o conteúdo da biblioteca que tiver sido publicado em copyleft. Há vários livros publicados nesse sistema. Além disso visa disponibilizar diversos textos importantes publicados digitalmente. Também quer integrar as distintas bibliotecas comunitárias e de organizações espalhadas pelo mundo, disponibilizando, via internet, bibliografia, resumos, conteúdos de livros integrais e soluções livres para impressão caseira e distribuição física de textos. (Textos digitalizados podem ser enviados para o e-mail contato@mosaicodelivrosfsm.org para serem disponibilizados on line).
Também pretende, através da integração de diversos grupos de tradutores do mundo todo, traduzir textos importantes em diversas línguas. A Biblioteca Social Mundial pretende ser ainda uma plataforma de discussão de idéias, intercâmbio de opiniões e conta com um site com espaço para publicação de notícias dos diferentes núcleos e pessoas que participam da campanha. Vamos alimentar o site com tudo o que chegar artigos, resenhas, notícias de todos os núcleos em todas as línguas). Visite-nos.

Porto Alegre pone en marcha una biblioteca pública mundial

Los Verdes de Andalucia, Espanha, publicaram a seguinte nota sobre o Mosaico de Livros: "El proyecto “Mosaico de libros” tiene como objetivo convertirse en la biblioteca del Foro Social Mundial. Hasta ahora, ya ha conseguido reunir 4.000 títulos sobre alternativas para la construcción de un mundo mejor. En 2001, la obra del educador Paulo Freire Pedagogía del oprimido fue donada al proyecto “Mosaico de libros”. Se trataba de la primera aportación para la construcción de una gran biblioteca de alternativas, que recogiese ideas para ese Otro Mundo Posible. Ese mismo año se celebró en Porto Alegre la primera edición del Foro Mundial de la Educación, que reunió a más de 15.000 personas vinculadas al mundo de la docencia. Uno de los actos del Foro consistió en la formación de la palabra PAZ con centenares de libros. Ésta fue la segunda aportación que recibió el proyecto para la biblioteca pública mundial". ¡Gracias! ¿Vale?

Quinta-feira, Outubro 13, 2005

Braço de escritor

Este é um dos contos que eu mais gosto... Começa assim: "Tenho braços fortes, de estátua grega feita por um Fídias. Mas não brancos de dentes do mármore. São duros iguais aos meus caninos, porém não pálidos. Queimo-os ao sol subtropical, de maneira que mantêm um suave dourado, como de pescadores romanos. Quando olho meu corpo de relance no espelho, saído com distração do banho, me deparo com membros que bem poderiam pertencer a um atleta olímpico. Seguro a toalha molhada, que levo para pendurar no varal, como um troféu de pano". Irônico, com alguma verdade sobre o que é fazer literatura, pra mim. O Charles Kiefer publicou na Bestiário, mas saiu também naquela muito massa, de Coré etuba: Rascunho.

Marina, 19

"Como um isqueiro acendendo velas numa mesa de jantar, meus dedos trêmulos pela traição incendiaram a pontinha do seio direito e correram, logo depois, para o outro, que já estava aceso. A lã grossa e macia da blusa apertada me fazia cócegas. Parecia uma mão peluda sobre a minha. Uma caranguejeira! Não sei por que uma idéia dessas, mas confesso que me veio à cabeça - e que hora para pensar naquilo! - a imagem de uma aranha peluda e negra das que tinham no pátio de minha casa, na distante infância, mexendo-se agora sobre a minha pele. Mas não tive medo (...)" Começa assim o conto Marina, 19, publicado no livro Porto Alegre, Curvas e Prazeres (WS Editor), em 2003. Pra quem quiser conferir o que eu ando fazendo (em literatura, em literatura...), pulse Nave da Palavra

Beco dos gatos

Acho que um bom livro infanto-juvenil, pelo menos útil para a imaginação e para a reflexão, tão fora da ordem do dia dos homenzinhos-massas e suas telinhas brilhantes... Um bando de gatos faz de tudo para sobreviver nas ruas da cidade. Companheirismo, amizade, ambição, drama, recheados com alguma ação. Betinha, que vivia reclamando de tudo, ao ouvir a história da gatinha Marga e do gato Tibélius, aprendeu uma lição: a realidade, com suas garras afiadas, é dura, e muitas vezes não damos valor para o que a gente tem. A criançada de rua, tantos um nosso imenso e desigual país, que o digam.. Páginas: só 64, bem ilustradas por meu amigo Mário Guerreiro, que já pintou o sete em dezenas de livros.

O mundo das alternativas

Taxa Tobin, agricultura familiar, bens públicos globais, consumo crítico, Pib verde, economia solidária, software livre, ações cidadas em redes, democracia participativa, neossocialismo... Estas são palavras e conceitos novos, idispensáveis para entender a (nova) esquerda mundial e o fantástico tempo de intercâmbio de alternativas que estamos vivendo, desde o início das reunioes do Fórum Social Mundial, em 2001. Quais são as novas categorias a partir das quais uma boa (a melhor) parte esquerda mundial está atuando? O que as elites nao sabem quando criticam o movimento antiglobalização (econômica, para deixar claro)? O que a(s) esquerda(s) deixam escapar quando enxergam o mundo parcialmente? ... Em 2001, eu e Zaira Machado publicamos o livro O Mundo das Alternativas - pequeno dicionário para uma globalização solidária (Veraz Editores), que se dedica, exatamente, a fazer um recorrido dessas novas palavras com as quais dizemos o mundo novo possível a ser construído.

Um mundo de altenativas

Aqui, uma entrevista feita pelo Leandro Mittman, ainda um estudante de jornalismo na Unisinos, para o Enfoque Campus, sobre o Mundo das Alternativas - Pequeno Dicionário para uma Globalizaçao Solidária. Superbacana.

Máquina de destruir leitores


Segundo a Unesco, são necessários três fatores para que existam leitores em um país. 1. O livro deve estar em um lugar privilegiado no imaginário nacional. 2. É preciso que existam famílias de leitores. 3. A escola deve saber formar leitores. Nem é preciso dizer muita coisa sobre o lugar do livro no imaginário do brasileiro. Quem o ocupa é a onipresente (e agora até onisciente) televisão. Quanto à quase inexistência de famílias de leitores, isso parece ser decorrência do fator número 1 somado à própria história da educação no Brasil.

Uma explicação para o fato das famílias brasileiras lerem tão pouco? E olha que não em comparação com os nossos colonizadores europeus, mas até com famílias de países de realidades bem próximas à nossa. Argentina, Uruguai e Chile, por exemplo, consomem, proporcionalmente, mais livros e jornais que os brasileiros. Uma comparação com esses países pode ser útil para encontrar pistas sobre as origens da falta de leitura no Brasil, mais do que analogias com outras realidades ainda mais distantes, tanto geográfica quanto culturalmente, da nossa.

Tudo bem, esses três países têm um histórico bem diferente do Brasil em termos de colonização e educação. Em 1915, de cada três argentinos, um tinha nascido na Europa. Em Buenos Aires, um em cada dois. Diferentemente de quase todas as famílias no Brasil, esses imigrantes receberam terras ao chegar na América. Uma maior base patrimonial fez com que, logo em seguida, essas populações já estivessem exigindo do Estado educação pública, o que não aconteceu no Brasil. Desde os jesuítas, até agora, a história da educação no Brasil pode ser dividida entre educação para a elite (de qualidade e cara) e educação para os pobres (de baixa qualidade e não para todos).

Remedios VaroOs resultados desse processo são enfáticos: há um abismo entre o Brasil e nossos vizinhos tão parecidos em termos de (ou falta de) desenvolvimento econômico. Embora pobres como nós, nos anos 90, por exemplo, segundo o estudo do Departamento Intersindical de Economia e Estatísticas Sociais e econômicas (Dieese), A Situação do Trabalho no Brasil (2002), o Chile baixou sua taxa de analfabetismo de 5% para 4%, a Argentina, de 4% para 3%, e o Uruguai, de 3% para 2%. O Brasil, no mesmo período, diminuiu seu número de analfabetos de 19% para 15%! Claro que esses índices e outros comparativos podem ajudar a explicar os vergonhosos números brasileiros em se tratando de leitura. Num recente levantamento, a Associação Nacional de Livrarias afirma que cada brasileiro lê, em média, dois livros anualmente. Uruguaios, chilenos e argentinos lêem mais de quatro livros per capita/ano, conforme afirmou no ano passado o ex-presidente da Câmara Rio-grandense do Livro, Paulo Flávio Ledur. Em países desenvolvidos da Europa, no Canadá e nos Estados Unidos, a média é de 15 a 25 livros por ano.

Segundo o Anuário Editorial Brasileiro, do Grupo Editorial Cone Sul, o Brasil inteiro, onde vivem cerca de 170 milhões de pessoas, tem apenas 2008 livrarias, o que dá, em média, um estabelecimento para cada 84,4 mil brasileiros! Uma única cidade européia, Paris, tem duas mil livrarias. A Argentina, antes da crise, tinha mais de 950 livrarias (para uma população de 37 milhões de habitantes). Em dois anos, a crise fez fechar 250 desses estabelecimentos. No Brasil, muitas cidades, inclusive no Rio Grande do Sul, não possuem uma livraria sequer. A Câmara Rio-Grandense do Livro e o Clube dos Editores divulgaram há três meses que 75% das cidades gaúchas não têm pontos de venda de livros. A situação é ainda pior em estados do Norte e Centro-Oeste. Roraima, Tocantins e Amapá têm, cada um, apenas duas livrarias em seus vastos territórios. Na Região Norte do Brasil, há apenas uma livraria para cada 215,3 mil habitantes. Sul e Sudeste estão um pouco melhores. Na Sudeste, a média é de uma livraria para cada 64,2 mil pessoas, enquanto que, na Sul, a média é de uma livraria para cada 56,7 mil habitantes.

Certamente, a altíssima concentração de renda brasileira – uma das maiores do mundo – impede as camadas mais pobres da sociedade de terem acesso aos bens culturais, a livros, teatro, música e informação que não venham diretamente da cultura de massa, seguindo a fórmula da indústria cultural: ou seja entretenimento barato, de baixa qualidade, para quase todos. Tanto o fator número 1 (O livro deve estar em um lugar privilegiado dentro do imaginário nacional), quanto o número 2 (É preciso haver famílias de leitores) parecem não ser assim tão fáceis de serem resolvidos, ainda mais quando se vive em uma sociedade conservadora e concentradora, que faz questão de manter as coisas tais como estão.

Para tentar melhorar as coisas, são criados, de tempos em tempos, programas de incentivo à leitura. Mas é um tanto difícil formar “um país de leitores” com campanhas esporádicas, se ao mesmo tempo se implementa uma política econômica que mantém sistematicamente elevadas taxas de desemprego (do início da década de 90 ao seu final, passamos de 10% de desempregados para mais de 20%) e baixíssimo poder econômico às camadas mais pobres da população.

Remedios VaroOutras contradições que claramente dificultam esse objetivo é o direcionamento nos últimos governos, antes de Lula, da política educacional para a privatização (que diminui o acesso de camadas mais pobres ao ensino) e a falta de mecanismos públicos que desmercantilizem a cultura (ao contrário, tem havido uma concentração de poder da indústria cultural). Esses são alguns de muitos outros elementos que, sem dúvida, têm relação direta com o preço do livro, o número de livrarias, a incapacidade de as bibliotecas públicas se equiparem, os professores de trabalharem melhor e os escritores de terem uma melhor “competitividade” em um mercado marcado pelo fordismo cultural.

O terceiro fator necessário para a existência de leitores em um país é: A escola deve saber formar leitores. Como se sabe, não bastassem as políticas econômicas excludentes, a história da educação no Brasil é também uma história de exclusão, de fortalecimento de uma elite que se beneficia do que de melhor há em termos de ensino e de uma crescente mercantilização do saber. Segundo David Plank (em Política Educacional no Brasil: Caminhos para Salvação Pública. Editora Artmed, 2001, Porto Alegre), desde o seu início, ainda no século XIX, as políticas educacionais brasileiras, excetuando breves períodos, ainda no começo do século XX, não tiveram como fim o desenvolvimento de uma sociedade menos desigual. Pelo contrário, salientaram as diferenças, promoveram a nítida separação entre uma educação de elite e outra para os pobres. Com a entrada no século americano, o XX, essas políticas educacionais, como se sabe, eram a mera tradução de determinações que os Estados Unidos colocaram em prática em todo o mundo pobre. Decorre daí a pragmatização do ensino, o tecnicismo, direcionamento da educação para a formação de mão-de-obra para o tipo de desenvolvimento que o Império (Estados Unidos e países ricos) necessitava.

O objetivo era formar peças para a máquina capitalista ao invés de seres humanos críticos. E quem é que pagou o pato? O leitor, é claro. É ele o alvo do acordo Mec-Usaid, da reforma do ensino de 1964 e da Lei de Diretrizes e Bases de 1967. De lá para cá, nunca mais teríamos leitores, afinal aquelas reformas ainda não foram de todo revertidas, nem mesmo pelos governos “democráticos”. A escola continua sem literatura estrangeira, sociologia e filosofia no ensino médio, o que significa: continua sem leitores. Há pouco Fernando Henrique Cardoso vetou a volta das disciplinas humanas nos currículos. Flagrante contradição de um governo que afirma estar empenhado em fazer do Brasil “um país de leitores”.

A escola não sabe ler

Resulta de toda essa história uma escola que é uma verdadeira “máquina de destruir leitores”. E é aqui que está um outro grande problema, talvez o maior, a ser enfrentado. Com o atual estágio de mercantilização e anestesia em que a sociedade brasileira se encontra, parece ser impossível colocar o livro em “um lugar de destaque no imaginário nacional”, assim como não se pode fazer com que as famílias se tornem famílias de leitores. Só nos resta intervir na escola, espaço que está mais perto dos verdadeiros interessados em fazer do Brasil “um país de leitores”. São eles os educadores, escritores, leitores desinteressados, humanistas em geral que sabem: a escola atual é uma máquina de destruir leitores porque “a escola não sabe ler”. Por isso, quando vai formar leitores, toma caminhos tão tortuosos que acabam resultando mais no afastamento dos alunos dos livros do que no contrário.

E quais são esses caminhos, ou melhor, quais as engrenagens da máquina de destruir leitores? Vamos a elas. A primeira é a promoção de um recorte utilitarista e pragmático, um tipo de leitura feita na sala de aula que, decididamente, é um empecilho violento à formação de leitores. Esse recorte dá um peso à leitura que ela, quando feita fora da escola, não tem. A leitura feita na escola é chata porque é profissional, porque continua sendo usada para passar ideologias, conteúdos etc. Não se lê na escola com o fim único e exclusivo de formar leitores, e sim para passar português, história, geografia. Assim, dá-se uma “utilidade” a esse hábito que, sem esse conteúdo, ele pareceria não ter. Aí está um primeiro contrapé em que se pode pegar a escola, essa não-leitora. Se ela tivesse o hábito da leitura de literatura, saberia que é na sua aparente inutilidade que a leitura é de fato útil, pois é nessa “inutilidade” que ela discursa contra um mundo prosaico e utilitarista.

Remedios VaroAtrapalhada, a escola coloca ao jovem ou à criança não-leitora uma série de entulhos, seja de forma concreta, através do livro para-didático (em que se “usa” uma história para passar algum conteúdo), da utilização da literatura para “enriquecer o vocabulário” ou, o pior de tudo, da mais utilitária das relações: prepará-la para o vestibular. Claro que, chata, pesada, a leitura será uma aventura de poucos (e dolorosos) dias. E a vida “lá fora” - a que Platão diria que de fora não tem nada, que é só o interior escuro da caverna – está cheia de divertimentos garantidos com muito menos investimento. Se quer, de fato, formar leitores, e não, no máximo, vestibulandos, a escola tem que, em primeiro lugar, saber o gosto que a leitura tem. Até agora ela só mostra que não se relaciona com os livros de forma diferente do que a sociedade pragmática e utilitária. E se ela quer ser um diferencial, se acredita que seu trabalho tem alguma especificidade na comparação com o mundo fora dela, tem que ser rebelde, revolucionária também na sua visão da leitura. Não pode olhar para os livros da mesma forma que o mundo prosaico, lá fora.

Um primeiro passo é desvincular a leitura da educação, retirar o peso que o ensino colocou e que transformou essa aventura da leitura num passeio de ônibus forçado, dirigido não pelo leitor, mas pelo professor-motorista. Os leitores não lêem só para aprender. Em primeiro lugar, lêem para se comover, para rir, chorar, vibrar, sentir. É daí que vem o gosto, que nunca mais se abandona. Aprender algo, ou não, é coisa secundária.

É preciso que a leitura leiga entre na escola, esse lugar sagrado demais. Precursores do Renascimento, os goliardos (filhos de Golias) eram grupos de estudantes que iam do interior dos países europeus para estudar nas universidades que ficavam nas capitais. Em sua época, século XIV e XV, as universidades eram clérigas e esses leigos interioranos muitas vezes tinham dificuldade em se adaptar à vida religiosa. Para serem cultos, era preciso ter fé. E isso não é para qualquer um.. Por isso mesmo, alguns desses estudantes abandonavam a faculdade no meio do caminho para não perder a laicidade. Sem profissão, muitos iam parar nas ruas, onde viraram poetas boêmios - um deles era o famoso poeta francês François Villon. Foi nas ruas das grandes cidades que ficou borbulhando um tipo de relação com a leitura que não era clériga nem leiga, mas uma mistura, um meio-termo. O Brasil nunca teve goliardos. A única leitura que se faz aqui é a clériga, a escolada, a utilitária feita entre as quatro paredes escuras da máquina. O resultado todos nós, infelizmente, conhecemos. Sem atacar esse problema, um entre tantos outros, nós nunca vamos conseguir fazer do Brasil um país de leitores.

a vaca azul é ninja

Ao contrário da espécie boiúna, bovinam vacas ronins. Lindas borboletas ornam o limiar obsceno de suas tetas raras, onde vegetam vis bebês samurais. Comeram gramas de outrora...

Quarta-feira, Outubro 12, 2005

Entrevista: Renato Janine Ribeiro

“Existe no ambiente universitário brasileiro um fechamento à experiência”

Por Jéferson Assumção

A frase acima é de um dos mais atuantes intelectuais brasileiros, o professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro - diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Janine participou, nos dias 25 e 26 de agosto, do Simpósio Universidade e Compromisso Social, realizado no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), em Brasília. O encontro contou com a participação de diversos especialistas em educação. Janine Ribeiro debateu com os convidados o que pensa por universidade, o sentido de compromisso social e defendeu uma universidade pública que vá além de seu caráter gratuito. Aproveitei a oportunidade para realizar uma entrevista, publicada no Informativo Inep/MEC. Vale a pena ler a entrevista completa.

Sábado, Outubro 08, 2005

el de la voz de oooro

Esta, a engraçadíssima Joselito, de Kiko Veneno, trilha sonora desses
dias ensolarados de Madrid, cantalorando no metrô a caminho da Fundación
Ortega y Gasset. Agora, desde ontem,a chuva começa a cair lá fora, fria,
sobre os imigrantes do Lavapiés. O outono morde as beiradas das folhas no Retiro...

"Por ahi viene joselito con los ojos brillantitos
Por la calle Peñó
Se ha tomado tres botellas de cocacola llenasss
de vino de chiclaaaaaanaaa
Ya tiene las ganas yahora solo buscaun sitioo
donde le dejen cantar
"Ponme otra copa tu ya sabes que mañanaaaaaunnn
voy a la mar"

Y aaaayyyyyy Joselitoooo
Y aaaayyyaaaayaaaaayyyyaaaayayayay

Vigilancia reforzada y en el puente el ambiente
es en tecnicolor
Y esto era muchos grados de mareaaaaa
al suuuuuuuuurrr
de Fernando Po
Ya llego la hora de la zarzamooraaa y subeeeeee
latmosfera del bar
y en el tubo traqueado el salitrelehadejadoooooo
rumor de altamar

Y aaaayyyyyy Joselitoooo
Y aaaayyyaaaayaaaaayyyyaaaayayayay

"yo soy joselitoooooooooo el de la voz de oooro
que de puerto en puertoooooooo voy dejando mi cupleeeeeeeeee
siete novias tuveeeeee
mas novias que un moro
me salieron malas
y a las siete abandoneee"

Y aaaayyyyyy Joselitoooo
Y aaaayyyaaaayaaaaayyyyaaaayayayay

Y aaaayyyyyy Joselitoooo
Y aaaayyyaaaayaaaaayyyyaaaayayayay

"yo soy joselitoooooooooo el de la voz de oooro
que de puerto en puertoooooooo voy dejando mi cupleeeeeeeeee
siete novias tuveeeeee
mas novias que un moro
¡me salieron malas!
y a las siete abandoneee"

Quinta-feira, Outubro 06, 2005

A estetização do político (ou o dandismo de esquerda)

Uma antiga discussão, sobre um encontro que (ainda) nunca aconteceu... A proposta era essa, corrida na lista da Rede de Resistência Global (RRG). Tratava da necessidade de realizar, dentro do 5º Acampamento Intercontinental da Juventude, de um grande seminário sobre a chamada “nova cultura política”. Um encontro que colocasse frente a frente os diversos atores políticos de juventude (e com a juventude) que fazem parte do Fórum Social Mundial. Um encontro de debate, de confronto de idéias para analisar o que chamamos de "nova cultura política", suas práticas e teorias. O artigo, reproduzido abaixo, tinha (e tem) a intenção de dar um pontapé inicial para começarmos esse debate.

"De cara, acho que precisamos tocar pelo menos num fato que não
podemos ignorar, vivenciado especialmente pelos jovens: existe uma
assimilação excessivamente rápida e, muitas vezes, sem mediação,
de idéias da moda política européia, prejudiciais ao enfrentamento
das nossas realidades políticas locais (no Brasil). Bastaria, para isso,
prestar atenção ao fato de que, enquanto coletivos europeus
desfraldam suas bandeiras de oposição franca ao Estado e aos
partidos políticos em geral, aqui (em Porto Alegre, São Paulo e
outras cidades), nos defrontamos neste 2004 com a brutal realidade
das mais difíceis eleições da última década, eleições que guiam os
rumos das políticas sociais pelos próximos quatro anos, quem sabe
até muito mais. Essa eleição só nos mostra, na prática, a
evidência de que, do lado de baixo do Equador, o abandono da
disputa pelo poder significa suicídio.
Do outro lado dessa rápida assimilação das idéias de fora, há um poder de
produção e reprodução muito grande dos europeus que distorce os
diagnósticos e impossibilita que se coloque em prática, nos locais em que
mais se necessitam (América Latina, Ásia e África), ações realmente
efetivas para a construção de um mundo melhor. Penso que esse problema
decorra de dois fatores.
1. Nossos amigos, os jovens ativistas europeus, em geral, têm tempo, educação,
prestígio (por viverem em países como França, Inglaterra e Alemanha) e dinheiro
suficientes para produzir e reproduzir suas idéias com uma força
avassaladora, e que chega muito rapidamente a nossos jovens de classe
média, principalmente via Internet. Daí que a experiência política local
dos europeus acaba facilmente valendo para o mundo como se reproduzisse a
realidade mundial.
2. Os jovens da classe média (brasileira, por exemplo, mas argentina e
outras também) em geral concordam com a visão distorcida espalhada pelos
europeus, pelo fato de que seus padrões de vida não são assim tão
diferentes dos da maioria desses europeus. Isso parece acontecer tanto no
Rio de Janeiro quanto em São Paulo e mesmo em Porto Alegre, mas
possivelmente seja comum em outras cidades da América Latina. Com tempo,
educação e dinheiro suficientes, reproduzem essas idéias entre os jovens
brasileiros mais pobres.
Nossa crítica direciona-se especificamente a coletivos, redes e
indivíduos europeus que, descontentes (e com razão) com sua
história política, fazem uma desconstrução dos partidos políticos e
outras formas de organização, tais como sindicatos, baseada tão-somente
na experiência que possuem na Europa. De fato, na Europa, partidos
políticos e sindicatos não significam o mesmo que no Brasil. Bom, mas
aquela se trata de uma sociedade com uma imensa classe média e duas
pequenas franjas, uma de ricos e outra de pobres. Não é essa a realidade
brasileira, por exemplo, em que a concentração de renda faz com que
exista um imenso número de pobres e de outros tantos abaixo da linha da
pobreza.
É natural que, na Europa, a diferença entre as organizações partidárias
reflita a pouca diferença de uma sociedade com uma distribuição de renda
bem melhor que a nossa, com muito mais educação, saúde e acesso a bens
culturais. Dessa maneira, essas organizações de ricos e pobres não se
diferenciam tanto, causando as confusões que conhecemos da realidade
política européia em que esquerda e direita pouco se diferenciam.
O mesmo acontece com os sindicatos em um lugar em que os trabalhadores,
com uma história de conquistas muito distinta da nossa, têm um padrão de
vida bem superior ao dos brasileiros, garantia de direitos sociais e
qualidade de vida. Um pedreiro espanhol pode passar as férias em
praticamente qualquer país do mundo, ter acesso a leitura de qualidade e
dar uma boa educação (gratuita) a seus filhos. Essa boa vida se reflete
no (baixo) grau de engajamento no sindicato e até mesmo no papel que os
sindicatos têm num país como esse. Claro que as ameaças a esses mesmos
direitos existem, mas a freqüentemente boa educação européia garante que
o sistema continue como está.
Os jovens de lá parecem ter razão em achar que esses sindicatos são
estruturas burocráticas, hierarquizadas e tomadas por burgueses. O
problema é a universalização, que mais uma vez a Europa faz, agora, por
alguns novos intelectuais, da sua realidade política local. Nas outras
aldeias do mundo, as coisas são bem diferentes. As realidades políticas
latino-americana, africana ou asiática têm pontos bem distintos da
européia. Em nossas aldeias, temos especificidades políticas que nossos
ativistas precisam primeiro conhecer, antes de reproduzir o pensamento de
ingleses, italianos, franceses e canadenses. Precisam olhar para trás
para saber como andar para a frente, deglutir o passado e,
principalmente, o presente a sua volta, e a partir dele fazer coisas
novas. O atalho propiciado por artigos de ativistas da moda não resolve a
dureza do problema ao lado. No máximo é de auto-ajuda para um problema
pessoal, estético, de um dândi de esquerda.
Agora, pensemos o seguinte. Para pegar outros dados não muito
divulgados: o Brasil inteiro, por exemplo, tem duas mil
livrarias. Só Paris, uma única cidade européia, possui duas mil.
A história do livro e da educação aqui mostra que nosso poder de
decisão e de auto-organização, a que os jovens europeus e os
nossos ativistas da classe média se referem como a maneira de
fazer política por excelência da nova geração política, não é uma
realidade visível, sequer presumível, nos próximos 40 anos, se a
coisa seguir como está.
Frente a uma realidade dessas, precisamos perguntar qual o real papel dos
sindicatos, organizações e partidos de esquerda no Brasil. Não sou
filiado a nenhuma dessas organizações, mas penso que nossa realidade
seria ainda muito pior se não existissem três grandes organizações no
Brasil, entre as maiores do mundo em suas áreas: Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Central Única dos Trabalhadores
(CUT) e Partido dos Trabalhadores (PT), com todas as críticas que se
façam e que eu também faço a elas. Mas não consigo ver um Brasil melhor
sem essas estruturas “verticais”, “hierarquizadas” e “tomadas pela
burguesia” (em geral o MST é colocado de fora dessa terceira
classificação).
As reformas neoliberais estariam muito mais avançadas no Brasil
caso elas não existissem, o que podemos ver na comparação com
países em que não há um grande partido de esquerda e organizações
similares, como é o caso do México (apesar dos zapatistas) e a
Argentina (apesar dos piqueteiros). Veja-se de tantos outros
países na América Latina em que os ativistas louvam a existência
dessas organizações brasileiras em todos os eventos que envolvem a
esquerda latino-americana. Não podemos, com isso, dizer que
estruturas como essas são o melhor que há, mas em se tratando da
realidade política e social brasileira não há como negar que elas
são, até hoje, o grande trunfo da defesa da parte pobre da
sociedade brasileira, embora, muitas vezes, não faça exatamente
tudo o que poderia ser feito. Porto Alegre chamou a atenção
mundialmente por causa do governo de um partido e de um "estado"
participativo.

A lição indiana

Em janeiro de 2004 estivemos no Fórum da Índia, evento cuja grande
marca foi deixar os ativistas europeus e a classe média
latino-americana com a cara no chão. Um bilhão de pessoas vivendo
uma realidade política que absolutamente não corresponde em nenhum
ponto à idéia que esses ativistas têm do mundo. A Índia tem 42% de
sua população analfabeta, 170 milhões de intocáveis e uma religião
que estrutura uma sociedade de maneira tão rígida que dificulta os
ideais do autonomismo e da auto-organização.
Lá o Estado é uma bomba atômica e canhões apontados para o Paquistão e
uma imensa empresa que faz as vezes de cuidar dos interesses dos mais
ricos. E o que será que restou do estado no Brasil e restante da América
Latina, depois de mais de uma década de onda neoliberal? Será que as
teses autonomistas, anarquistas e românticas da nova geração política têm
condições de levar mais saúde e educação à população de pobres que,
segundo os jornais, vem crescendo ainda mais na última década?
E tem o seguinte. Um finlandês quando chega aos 35 anos ainda é um jovem
que, se quiser, vai, a partir de então, constituir uma família e,
finalmente, trabalhar. Desde as séries iniciais até praticamente o
doutorado ele tem seus estudos garantidos. Fala de três a quatro línguas,
todas aprendidas na escola pública. Não precisa trabalhar porque o estado
o considera um trabalhador se estuda e inclusive ganhará dinheiro para
estudar fora de seu país. Ele, sinceramente, tem todo o direito de se
revoltar contra o Estado, como uma instância, um conjunto de leis, acima
dele, que o oprime como o indivíduo autônomo que é.

Vila Sapo é que vive o mundo sem estado

Só que na pequena Vila Sapo, fundos do bairro Mathias Velho, em
Canoas, região metropolitana de Porto Alegre, uma população,
possivelmente muito maior que todos os pobres finlandeses juntos,
daria graças a Deus por um estado que possibilitasse uma escola
perto de casa (com pelo menos o secundário público e gratuito),
luz acesa nas ruas e segurança que protegesse os que conseguem um
emprego de baixíssima qualidade longe de casa. Esses brasileiros
vivem na pele a realidade de uma vida sem a “opressão” do Estado,
a ausência de leis, a barbárie e o deus-dará a que são jogados e
sem nenhuma possibilidade de fugir. O que quero dizer é que parece
existir uma juventude de classe média brasileira que não tem a
menor idéia do que é viver sem estado, que tem uma educação tão
boa quanto a dos eurolpeus (garantida em escolas privadas e
caras), que falam inglês e francês e que gostariam de viver em um
lugar livre de leis, autônomo, e sem a opressão do Estado. Pois
bem, esse lugar já existe. É a realidade de todas as favelas,
vilas e bairros periféricos brasileiros.
Em Barcelona tivemos a oportunidade de assistir Antonio Negri
falar sobre o novo ativista, um romântico, um indivíduo, que faz
uma nova política, baseada em uma entrega pessoal. Segundo Negri,
o trabalho é algo imaterial, hoje, e o trabalhador do século XXI é
um fornecedor de serviços mais que um trabalhador braçal. Com meio
centímetro de testa, se poderia entender que esse ativista não tem
absolutamente nada a ver com o mundo, que reflete uma aldeiazinha
muito pequena da comunidade mundial, a Europa. No que Negri fala
está uma questão absolutamente importante de se pensar: o ativista
europeu (e o classe média brasileiro) é um romântico, um dândi, um
indivíduo em que prevalece a dimensão estética à ética ou política
(o homem é um animal ético-estético). Sem mediação, sem conceitos,
a chamada “nova cultura política” corre o risco de não passar de
um fútil exercício estético, cuja ética vem a reboque e faz parte
da própria estética, uma ética individualista e romântica, bonita,
talvez irresponsável."